Lutador de campos e tribunais
MIKLOS FEHÉR chegou a Portugal em 1998, com 18 anos, para representar o
FC Porto, vindo do Gyori Eto, clube da cidade onde nasceu, na Hungria. Um
nome perdido num mar de contratações, com tudo para mostrar aos portistas e
ao futebol português. Na altura não pareceu assustado com o desafio. «Ouvi
falar desse tal de Tribunal das Antas e sei bem que terei de ser avaliado.
Vamos a isso», disse.
Não teve vida
fácil no Porto, onde esteve até 2002, oscilando entre esporádicas
oportunidades na equipa principal dos azuis e brancos e presenças mais
assíduas na equipa B. Ao todo, em jogos de campeonato, fez três golos de
dragão ao peito, dois deles pelos bês. Pelo meio empréstimos ao Salgueiros e
depois ao Sporting de Braga, onde encontrou Manuel Cajuda, treinador que o
ajudou a revelar o seu verdadeiro potencial nos palcos portugueses, na
temporada 2001/02.
Em Braga, Fehér fez 14 golos em26 jogos e alimentou o sonho de um glorioso
regresso às Antas, para acertar contas com o tal tribunal que ainda não
tinha convencido. Voltou a não ter sorte e adensou-se a maior polémica da
sua carreira, quando foi para o Benfica, transferência adornada durante
longos meses por rocambolesco processo que começou com uma carta de
desvinculação. O presidente do FC Porto defendeu que a tinha enviado para o
jogador e que tinha um registo disso mesmo, Fehér sempre disse que não tinha
recebido ou assinado o que quer que fosse. Do tribunal do FC Porto para o
tribunal como FC Porto foi um pulo pequeno e dois processos chegaram a andar
pelas salas da justiça desportiva: um pedido de indemnização dos portistas
na ordem dos seis milhões de euros pela saída do jogador para a Luz e um
pedido de nulidade de Fehér a respeito da renovação automática com o FC
Porto.
O caso do jovem jogador ameaçou ganhar contornos internacionais quando Fehér
contestou as disposições do Contrato Colectivo de Trabalho, nomeadamente as
impeditivas de livre transferência de jogadores menores de 24 anos. Chegou
mesmo a mover uma acção contra a Liga de Clubes e contra o Sindicato de
Jogadores Profissionais de Futebol.
Pelo meio a afirmação do seu nome na equipa do Benfica, mesmo que assente em
apostas difusas, em estados de intermitente titularidade, muitas vezes
condicionados por arreliadoras lesões no joelho esquerdo, alvo de duas
intervenções cirúrgicas em dois anos.
Há dias ficou a saber-se que a Comissão Arbitral da Liga condenou o Benfica
a pagar 600 mil euros ao FC Porto no âmbito da polémica transferência
anteriormente referida, valor referente a dez por cento da exigência dos
dragões.
«Estou no maior clube de Portugal», disse um dia Fehér a propósito do
Benfica, clube que esteve prestes a deixar recentemente seduzido de longe
por propostas de Vitória de Guimarães, Marítimo e outros. Preferiu ficar,
decidido, ciente de que entre os tribunais que ganhou e perdeu encontrou
sempre espaço para si, para a sua carreira, para as suas lutas dentro e fora
de campo.