Esta era a notícia que ninguém queria
dar
UM cartão amarelo, um sorriso, uma queda desamparada no
relvado frio e húmido de Guimarães. O desespero dos colegas de profissão
transmitido em directo para milhões de telespectadores que se angustiavam em
casa. A aflição de quem olhava das bancadas, percebendo apenas que algo de
muito grave se passava diante dos seus olhos. Treze mil almas ainda gritaram
pelo húngaro, quando ele saiu de ambulância para o Hospital de Guimarães,
mas o destino negro estava traçado. Fehér morreu ontem à noite e tinha 24
anos.
Passavam
exactamente dois minutos e meio dos 90 quando Miki Fehér ficou estatelado no
relvado. Tinha entrado aos 60 minutos, participado no golo do Benfica,
acabara de ver um cartão amarelo por impedir a marcação de um livre. Sorria
ainda quando se curvou, mãos nos joelhos. Deixou-se cair de costas, sem
qualquer esboço de resistência, inanimado, como confirmou a violência da
queda. Braços e pernas estendidos, a cabeça de lado e a barriga a mexer, em
convulsão. Terá sido este sintoma que levou Tomo Sokota—o primeiro jogador a
chegar perto de Fehér — a virar o companheiro de lado, para que pudesse
vomitar e não asfixiasse. Uma atitude prontamente elogiada por alguns
médicos e apontada como a adequada neste tipo de situações. O segundo
jogador a aproximar-se do local da tragédia foi Cléber. O capitão do Vitória
de Guimarães tentou colocar a mão na boca de Fehér e logo a seguir surgiu
Tiago, que levou apenas alguns segundos para se afastar, com as mãos na
cabeça e a chorar convulsivamente. A confusão instalou-se, chegaram os
médicos e os bombeiros... Começava uma luta dramática contra o tempo e
contra a morte. Uma luta que viria a revelar-se definitivamente perdida às
23:33, quando o responsável pela comunicação do Benfica, Cunha Vaz, assumiu
o terrível ónus de confirmar a notícia da morte de um jovem futebolista de
24 anos.
Pouco depois, faltavam 20 minutos para a meia-noite, veio a confirmação
oficial do óbito, dada no Hospital da Senhora da Oliveira por Fausto
Fernandes, director clínico da unidade. Tão curto e seco como o momento
fatídico da queda de Fehér — haverá outra forma de lidar de frente com estas
partidas da vida e da morte? — o comunicado referia uma paragem
cardio-respiratória e dava conta de que a autópsia, a realizar hoje,
determinará com precisão as causas do óbito. Um pouco mais tarde os
departamentos médicos do Benfica e do Vitória de Guimarães marcaram
igualmente posição, tinha já amainado a agitação vivida no hospital com a
presença de jogadores, treinadores e dirigentes das duas equipas e muitas
outras pessoas ligadas ao futebol, assim como público anónimo. Muitos,
provavelmente, tinham gritado o nome de Fehér nas bancadas, minutos atrás.
Há 30 anos, um mês e nove dias, morria no relvado do Estádio das Antas o
jogador azul e branco Pavão. Uma tragédia que chocou o país... em diferido.
Esta de Miklos Fehér entrou pelos lares dos portugueses a hora nobre de
televisão e rapidamente se espalhou pelos quatro cantos do Mundo.
Há sempre, nestes episódios que nos devolvem a noção da pequenez e das
limitações humanas, o traço amargo das ironias: uma delas tinha a ver com
uma data que será (seria) sempre de festa para o Benfica — rei Eusébio fez
62 anos; outra tinha a ver directamente com a felicidade do jovem de 24 anos
que perdemos ontem: a noiva estava longe, na Hungria natal de ambos, a
tratar dos papéis para o casamento que se avizinhava. Foi um compatriota,
Buszáky, da Académica, quem lhe deu conta do sucedido. Foi provavelmente a
pior tarefa que já teve na vida. Tal como nós, ele pagava o que fosse
preciso para nunca ter de dar uma notícia destas...