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ADEUS FEHÉR

1979-2004


 

DO ESTÁDIO PARA O HOSPITAL
Corrida contra o destino

Em Guimarães, levou-se ao limite a luta pela vida de Fehér e a missão humana prendeu a respiração de quem acompanhou de perto momentos de absoluto pânico. Fehér caiu no relvado por volta das 21.32 minutos, entrou no hospital às 21.50 horas e o seu óbito só foi declarado às 23.10 horas.

Pelo meio, um conjunto de acções heróicas não evitaram o pior desfecho. Aconteceu, infelizmente, o que começou a ser projectado pouco depois de ter abandonado o relvado.

O INEM foi chamado e respondeu prontamente com o UMER (Unidade Médica de Emergência Respiratória), um carro que desde Novembro existe na cidade-berço, a quarta no país a dispor do serviço, depois de terem sido disponibilizados para as cidades de Lisboa, Porto e Coimbra.

O estado em que o húngaro deixou o Estádio D. Afonso Henriques reduziu claramente as suas hipóteses de vida, mas no Hospital Senhora da Oliveira, e face aos sinais vitais ainda existentes, a esperança tardou a cair. Fehér entrou directamente para a sala de reanimação/ressuscitação, que quando aberta accionou, de imediato e conforme o protocolado, um alarme em todas as unidades do hospital.

À sua espera tinha já uma equipa composta por cardiologistas, intensistas, enfermeiros, anestesistas e elementos de medicina interna. Aterrorizado, João Paulo Almeida, médico do Benfica, não abandonou por um segundo que fosse a sala de manobras.

Ainda no recinto, Fehér foi tratado com base naquilo que tecnicamente se denomina "Suporte Básico de Vida". Posteriormente, seguiu-se o "Suporte Avançado de Vida". As diferenças são claras: no primeiro processo os clínicos ficam-se pelas manobras manuais (massagens), pois o uso do desfibrilador, num terreno cheio de água, não era aconselhável; no segundo, já foi ligado a diversos meios respiratórios. Fehér reagia e? desaparecia.

Mas os meios não se esgotaram, tendo-lhe sido administrado um trombolítico, medicamento apenas usado nos hospital e que custa cerca de mil euros. Nem assim. Os médicos, em consenso, desistiram, pois nada mais havia a fazer perante um ataque tão violento quanto inesperado.

Estádios com material suficiente

Os estádios portugueses dispõem das condições suficientes para a recuperação de pacientes que sofram uma paragem cardíaca, como foi o caso de Miki Fehér.

O Vitória de Guimarães é, aliás, um dos clubes melhor apetrechados ao nível de material para suporte básico de vida, sendo dos poucos no País que dispõe de um desfibrilador automático, um aparelho que apenas pode ser manuseado por médicos e cuja aquisição é voluntária por parte dos clubes desportivos; em Portugal, poucos para além dos três "grandes", procederam à sua compra. A FPF, por exemplo, dispõe há cerca de três anos e meio de um destes aparelhos, que é transportado em cada deslocação de uma das selecções nacionais.

Uma mala de primeiros socorros contém todo o material necessário para a reanimação, incluindo o AMBU e tubos de Maio, que servem para fornecer respiração artificial; os estádios estão igualmente equipados com um electrocardiógrafo.

Caso o problema persista, recorre-se então ao suporte avançado de vida, que normalmente só se encontra disponível nos hospitais, já que obriga à utilização de aparelhos com monitorização, mais difíceis de transportar. Aliás, o Real Madrid será neste momento o único clube na Europa a dispor deste tipo de condições.

Opinião médica

"A morte súbita acontece, mesmo sem indicadores nenhuns e, muitas vezes, sem possibilidade de previsão. Temos de deixar em aberto a possibilidade de não haver nada a fazer e aceitar o fatalismo de existir - felizmente numa percentagem mínima - a morte súbita no desporto. Existe em todo o Mundo e também em Portugal"

Gomes Pereira, médico do Sporting

"Conhecia o Fehér há mais de quatro anos, primeiro enquanto jogador das camadas jovens e depois como internacional e sénior, e ele nunca teve problemas cardíacos. Jamais tomou medicamentos para problemas cardiovas- culares"

Dezso Lejko, médico da selecção húngara

"Não surpreende o facto de a autópsia, para já, ser inconclusiva. Isto significa que, em princípio, não foi vítima de um aneurisma cerebral, mas talvez de uma fibrilação ventricular, algo que, por exemplo, acontece com frequência em corações anormais mas que, por vezes, também tem razão desconhecida. As emoções, o esforço físico ou outros estímulos podem causar estas anomalias"

Manuel Antunes, cardiologista da Universidade de Coimbra