Miki, Miki, Miki!
ARREPIANTE.
Toda a equipa em choro compulsivo, abraçada em redor da urna de Fehér. «Miki,
Miki, Miki», gritaram. Um grito que veio do fundo da alma. Com Camacho, Filipe
Vieira e a família de Fehér banhada em lágrimas. E quem não soltou, naquele
momento, uma lágrima que fosse?
Jogadores,
treinadores e equipa médica entraram no hall
principal do estádio às 21:50. Miguel e o enfermeiro Duarte
Pinto depositaram uma coroa de flores do plantel junto ao local onde seria
depositada a urna de Fehér. Os jogadores começaram a chorar. Camacho chamou
seis: Hélder, Simão, Zahovic, Nuno Gomes e Miguel (os capitães) mais Argel.
Coube-lhes a tarefa de transportar o caixão.
A chegada do malogrado jogador aconteceu às 22:30. Foi recebido
com palmas, inclusive dos milhares de pessoas que se acotovelavam junto à
entrada e entoavam o seu nome. Os jogadores dão um abraço e ninguém consegue
conter as lágrimas. Todos os companheiros rodeiam a urna, unidos. Rezam o
Pai-Nosso. Depois, o choro compulsivo dos jogadores rasga todos os silêncios,
perturba, emociona, desconcerta.
Uma camisola número 29 é colocada em cima da urna. Não será usada por mais
ninguém. E é neste momento, quando se acredita que nada mais poderá esmagar o
sentimento de quem tem por missão relatar factos, que todos gritam: «Miki, Miki,
Miki!». Soltou-se o grito em tons de raiva, de desespero, de saudade, de
incredulidade. Porque não de incentivo nesta nova viagem que Fehér não escolheu
mas de que aprenderá, como em vida, a tirar o melhor partido?
Camacho ainda mordeu os lábios durante muito tempo, mas por detrás de um homem
que cultivou a imagem de durão está apenas um coração que também chora quando vê
partir um dos seus. E ainda hoje soa naquela sala um grito profundo: «Miki,
Miki, Miki...»