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ADEUS FEHÉR

1979-2004


 

Até sempre escreve-se com todas as cores

O nevoeiro que durante todo o dia pairou sobre Guimarães deixou mais carregado ainda o ambiente de pesar que se vivia a cada canto. Homens e mulheres, novos e velhos, unidos por uma profunda tristeza pela morte de Fehér. Mais significativo sentir que o menino húngaro que morreu em pleno relvado fez pelo futebol português o que todos julgavam impossível: unir os adeptos de todos os clubes.

Um mar de gente esteve horas a fio junto à saída do hospital Senhora da Oliveira, cada pessoa vestida com cores dos mais variados clubes. Portistas e benfiquistas abraçados a gritarem Fehér. Camisolas do Sporting ou do Moreirense a darem um pouco de verde a todo aquele arco-íris. Todos, mesmo todos a prestarem uma sentida homenagem ao atleta.
Quando o carro funerário deixou o hospital todos gritaram o mais que podiam o nome de Fehér. Muitas palmas à mistura enquanto se aproximavam para verem o caixão coberto com a bandeira do Benfica e um ramo de flores envolvidas num cachecol do FC Porto. Fehér provou-o: há momentos em que a rivalidade não faz sentido...

Romaria na Luz

Quando, às 12 horas, se abriram as portas da entrada principal da Luz, já várias centenas de benfiquistas aguardavam pela oportunidade de assinarem o livro de condolências. Muita gente trazia flores, que foram enchendo o salão. Com muitas mensagens: de turmas, de empresas que trabalham na Luz, de militares, de gente do futebol, de tanta gente anónima.
O preto do luto casou com as cores de tantos clubes. Como o verde, o azul, ou branco de vários cachecóis. Unidos no vermelho que ontem foi de muita dor. Irrepreensível o respeito recíproco entre as pessoas. Não houve ponta de rivalidades. Até pai e filho caminhavam com as cores do Benfica e Sporting.
Foram milhares as pessoas que acorreram à Luz. Que esperaram horas para assinar o livro de condolências, que esperaram horas à chuva intensa pela chegada de Fehér. Houve até quem não conseguisse aguentar e desfalecesse. Duas senhoras foram mesmo assistidas por um membro da Assistência Médica Caduceus após terem desmaiado. Muitas horas em pé, sem comer, e muitas emoções à flor da pele.
Mal o carro funerário passou na segunda circular, não mais pararam os cânticos para o Benfica e Fehér. No final da noite, três a quatro mil pessoas entraram estádio dentro, acreditando que a urna de Fehér seria colocada no centro do relvado. Puro engano. No centro do relvado foram colocadas velas, bandeiras e cachecóis do Benfica. Na penumbra, as pessoas pareciam estar num templo, em sofrimento, oração e contemplação. Mais tarde, ouviram pelo sistema sonoro que teriam de abandonar o recinto, já que a urna de Fehér não iria para o relvado. Saíram, lentamente, ainda em recolhimento.
Às 1.30 horas as portas da entrada principal foram fechadas, quando centenas de pessoas ainda queriam assinar o livro de condolências e homenagear Fehér.Mas tinha chegado a hora da família, finalmente, poder velar o corpo em sossego e recolhimento.