Entrou no átrio principal do Estádio da Luz oriundo da
longa fila que quase circundava o recinto e de súbito começou a
falar alto.
O burburinho que até então reinava na sala - perfumada pelos
milhares de flores consecutivamente depositadas diante do corpo
de Miklos Fehér - desapareceu, e fez-se um silêncio sepulcral,
pois havia um homem a gritar em plenos pulmões directamente para
a urna do malogrado jogador.
Um lunático? Um louco? Um desequilibrado? Depois de um chorrilho
de palavras, a maioria das quais incompreensíveis, o homem, que
chorava compulsivamente, gritou: "Onde está Deus? Porque roubou
a vida a um jovem de 24 anos? Será que existe Deus?"
Estas perguntas colocadas de forma tão inconveniente, num local
tão solene, já passaram certamente pela cabeça da família, dos
amigos, dos conhecidos e até dos muitos anónimos que ao longo
dos últimos dois dias aguentaram longas horas de espera para
poderem despedir-se de Miki Fehér. A irmã, a namorada e aquele
que seria o futuro cunhado do atleta não assistiram a este
episódio, mas certamente também já questionaram a justiça
divina...
Com os olhos rasos de lágrimas, acabrunhados e comovidos pela
demonstração de solidariedade patenteada pelo povo português, os
familiares, destroçadíssimos, estiveram ontem por duas vezes
junto de Miki Fehér.
Por volta das 14.00 horas a urna foi retirada do átrio
principal, com vista a ser selada pelos responsáveis da agência
funerária, um procedimento que se prolongou por 50 minutos.
Longe dos olhares dos curiosos, a família mais chegada que ainda
está em Portugal (os pais embarcaram ontem de manhã para a
Hungria) despediu-se do jogador.
Mais tarde compareceram todos na sala onde estava o caixão e
durante aqueles dez minutos (o tempo que os familiares ali
estiveram, juntamente com o embaixador da Hungria) viveram-se os
momentos mais tristes do dia. A namorada de Fehér, sempre
acompanhada por um profissional de saúde, chorava
compulsivamente e a irmã também não conseguia controlar as
lágrimas diante das enorme quantidade de flores que cobria o
corpo.
Das centenas, quiçá milhares, de recordações que os muitos
adeptos, amigos e conhecidos deixaram junto da urna algumas vão
seguir para a Hungria. Mas ontem, a noiva e a irmã do atleta
escolheram as primeiras lembranças. De entre as inúmeras flores,
cachecóis, gorros, bonés, camisolas e cartazes, oriundos um
pouco de todo o país, cada uma delas escolheu duas fotografias
do jogador. Depois, abandonaram a sala, a chorar, com as fotos
coladas ao peito.
Camisolas esgotadas
As camisolas de Miklos Fehér já estão esgotadas. Não há o
equipamento com o nome do avançado húngaro, assim como também já
não estão disponíveis os números 2 e 9. Ou seja, não só não se
pode vender o número 29 de "Miki", assim como não existe o 2 de
Armando nem o 9 de Pedro Mantorras.
Rola mostra o 'último' amarelo
O antigo árbitro António Rola também passou pela Luz e
homenageou Fehér de uma forma original. Colocou em cima da urna
uma moldura que continha quatro fotos do jogador e um cartão
amarelo com a inscrição: "Foi a 25/01/04, na exibição de um
cartão igual a este que deste o último sorriso".
120 mil condolências
Foi criado um "site" na internet para os cibernautas enviarem as
respectivas mensagens de condolências a Miklos Fehér. Na noite
de ontem, já mais de 120 mil admiradores do húngaro tinham
prestado a última homenagem.
Vendedores na Luz
A aglomeração de pessoas junto ao Estádio da Luz trouxe a
habitual invasão de vendedores ambulantes, muito frequentes em
dias de jogos. Nas imediações do recinto desportivo vendia-se de
tudo um pouco: flores, cachecóis de vários clubes, castanhas e
até chapéus de chuva.