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ADEUS FEHÉR

1979-2004


 

ADEPTO ENCARNADO GRITOU NO VELÓRIO DE FEHÉR O QUE VAI NA ALMA DE TODOS
«Onde está Deus?»

Entrou no átrio principal do Estádio da Luz oriundo da longa fila que quase circundava o recinto e de súbito começou a falar alto.

O burburinho que até então reinava na sala - perfumada pelos milhares de flores consecutivamente depositadas diante do corpo de Miklos Fehér - desapareceu, e fez-se um silêncio sepulcral, pois havia um homem a gritar em plenos pulmões directamente para a urna do malogrado jogador.

Um lunático? Um louco? Um desequilibrado? Depois de um chorrilho de palavras, a maioria das quais incompreensíveis, o homem, que chorava compulsivamente, gritou: "Onde está Deus? Porque roubou a vida a um jovem de 24 anos? Será que existe Deus?"

Estas perguntas colocadas de forma tão inconveniente, num local tão solene, já passaram certamente pela cabeça da família, dos amigos, dos conhecidos e até dos muitos anónimos que ao longo dos últimos dois dias aguentaram longas horas de espera para poderem despedir-se de Miki Fehér. A irmã, a namorada e aquele que seria o futuro cunhado do atleta não assistiram a este episódio, mas certamente também já questionaram a justiça divina...

Com os olhos rasos de lágrimas, acabrunhados e comovidos pela demonstração de solidariedade patenteada pelo povo português, os familiares, destroçadíssimos, estiveram ontem por duas vezes junto de Miki Fehér.

Por volta das 14.00 horas a urna foi retirada do átrio principal, com vista a ser selada pelos responsáveis da agência funerária, um procedimento que se prolongou por 50 minutos. Longe dos olhares dos curiosos, a família mais chegada que ainda está em Portugal (os pais embarcaram ontem de manhã para a Hungria) despediu-se do jogador.

Mais tarde compareceram todos na sala onde estava o caixão e durante aqueles dez minutos (o tempo que os familiares ali estiveram, juntamente com o embaixador da Hungria) viveram-se os momentos mais tristes do dia. A namorada de Fehér, sempre acompanhada por um profissional de saúde, chorava compulsivamente e a irmã também não conseguia controlar as lágrimas diante das enorme quantidade de flores que cobria o corpo.

Das centenas, quiçá milhares, de recordações que os muitos adeptos, amigos e conhecidos deixaram junto da urna algumas vão seguir para a Hungria. Mas ontem, a noiva e a irmã do atleta escolheram as primeiras lembranças. De entre as inúmeras flores, cachecóis, gorros, bonés, camisolas e cartazes, oriundos um pouco de todo o país, cada uma delas escolheu duas fotografias do jogador. Depois, abandonaram a sala, a chorar, com as fotos coladas ao peito.

Camisolas esgotadas

As camisolas de Miklos Fehér já estão esgotadas. Não há o equipamento com o nome do avançado húngaro, assim como também já não estão disponíveis os números 2 e 9. Ou seja, não só não se pode vender o número 29 de "Miki", assim como não existe o 2 de Armando nem o 9 de Pedro Mantorras.

Rola mostra o 'último' amarelo

O antigo árbitro António Rola também passou pela Luz e homenageou Fehér de uma forma original. Colocou em cima da urna uma moldura que continha quatro fotos do jogador e um cartão amarelo com a inscrição: "Foi a 25/01/04, na exibição de um cartão igual a este que deste o último sorriso".

120 mil condolências

Foi criado um "site" na internet para os cibernautas enviarem as respectivas mensagens de condolências a Miklos Fehér. Na noite de ontem, já mais de 120 mil admiradores do húngaro tinham prestado a última homenagem.

Vendedores na Luz

A aglomeração de pessoas junto ao Estádio da Luz trouxe a habitual invasão de vendedores ambulantes, muito frequentes em dias de jogos. Nas imediações do recinto desportivo vendia-se de tudo um pouco: flores, cachecóis de vários clubes, castanhas e até chapéus de chuva.