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ADEUS FEHÉR

1979-2004


 

GYOR ESTÁ VESTIDA DE UM MANTO BRANCO DE NEVE E ENVOLTA EM PROFUNDA TRISTEZA
Estado de choque

Há uma senhora de meia idade que limpa a neve que cobre o vidro do seu velhinho Trabant. Não diz uma palavra em inglês mas responde com um profundo suspiro quando pronunciamos o nome de Fehér. E abana com a cabeça porque também ela não acredita.

Das janelas, outras senhoras, mais velhas ainda, olham-nos com desconfiança. Estamos à porta do restaurante dos pais daquele que foi, até à passada noite de domingo, avançado do Benfica. Os flocos de neve continuam a cair e rapidamente transformam a Rua Soproni num manto branco.

Por essa altura ainda se vislumbram as letras numa placa à entrada da casa onde se pode ler: "Betegseg miatt a Konyha nemuzemel! Mégértésuket kérjuk" É um aviso mas é também um sinal de esperança, uma forma de recusar a fatalidade e o destino. O que se transmite às pessoas que passam e que procuram o restaurante dos pais de Fehér é que, devido a uma doença, a cozinha se encontra fechada e, por tal motivo, o pedido de desculpas a todos os clientes. Não se fala da morte, fala-se de uma doença, como se, à hora a que o aviso foi escrito, existisse ainda um probabilidade muito forte de contornar uma rasteira da vida.

Mas não é só no bairro a que o poeta Attilo József deu o nome que se chora por Fehér. Toda a cidade está envolta numa profunda tristeza. Nos quiosques, as capas dos jornais de ontem (apenas ontem) mostram as imagens terríveis da tragédia. Na redacção do "Kisalföld", jornal desta bonita cidade banhada pelo Danúbio, pelo Rába e pelo Rábca, os jornalistas ainda pensam que estão a viver um pesadelo.

"Era tão bom jogador e tão boa pessoa. Estava sempre a sorrir", lembra Gabor Szabo, um dos repórteres que teve a infelicidade de dar a triste notícia aos seus leitores. Miki Fehér nunca renegou às suas origens. Sempre que permanecia em Gyor dois ou três dias procurava os amigos, os antigos professores, revivia parte do seu passado.

Hoje, pela primeira vez, quando se ouvirem as três badaladas, certamente sob uma neve teimosa, Miki Fehér regressa à "cidade onde os rios se cruzam" não para ver os amigos ou os antigos professores mas para todos eles se despedirem do menino do sorriso eterno. Nem tu sabes como eles estão tristes, Miki! Nem tu sabes como lhes dói o coração, Miki!