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4 de Dezembro 2003:  Entrevista com Camacho

Completa hoje um ano à frente do Benfica
Os sentimentos de um clube não se constroem com
euros

JOSÉ ANTONIO CAMACHO aceitou o repto que A BOLA lhe lançou para, a partir de um olhar pelos seus 12 meses ao serviço do Benfica, lançar algumas pistas sobre o futuro do clube. Frontal mas sempre correcto, o técnico encarnado mostrou um pragmatismo assinalável, traçando com precisão a fronteira entre o que seria desejável e aquilo que é realmente possível na Luz. Preocupado em não pisar a linha que separa as suas funções da área da Direcção, Camacho sempre revelou que o Benfica tentou adquirir Rui Costa e Ronaldinho, elogiou a atitude dos jogadores, obrigados a trabalhar em condições longe das ideais e falou de futebol com enorme paixão, da táctica e da relação com os pupilos, de alguns casos particulares e ainda das consequências da polémica sobre a braçadeira de capitão. 

— Que balanço faz de um ano no Benfica? 
— Ao longo deste ano deparei-me com situações diversas. Agora já temos um estádio onde jogar, um presidente com um mandato de três anos para cumprir... mas tenho consciência de que ainda há muito para fazer. Apesar de sermos um dos chamados grandes, continuamos a treinar-nos em 18 campos diferentes, o que torna a nossa vida muito difícil. Há um preço que é pago pela equipa que por vezes só pode treinar-se num relvado de cinco metros e hoje trabalha aqui e amanhã ali. Percebo o que aconteceu, com a necessidade de fazer um novo estádio devido ao Euro-2004 e com a construção de novas infra-estruturas de treino. Mas toda esta transformação tem custos associados. 
— Mas terá sido a questão logística a sua principal dificuldade ao longo deste ano? 
— O plantel que encontrei era novo no clube e poucos jogadores estavam cá há mais de dois anos. Lembro-me que o Drulovic dava como razão para ter saído do FC Porto o facto de ter lá passado 7 anos e a verdade é que já era capitão do Benfica apesar de ter pouco tempo de casa. Isso não deve acontecer num clube grande. Os jogadores devem estar identificados com a entidade ao longo de muitos anos. Essa foi uma alteração que ajudei a implementar. Há sete ou oito jogadores do Benfica que devem ser intocáveis. São internacionais, ganham cada vez mais projecção e devem ficar aqui vários anos, para saberem o que é ganhar com o Benfica. 
— Essa mudança, traduzida na estabilização do plantel, é a sua primeira vitória no clube? 
— Não é a minha vitória. É uma vitória para o Benfica. 
— Mas foi consigo que isso aconteceu, após épocas a fio de entradas e saídas em massa... 
— Só assim se pode estar num grande. Os sentimentos de um clube não se constroem à custa de euros. É preciso saber o que é saborear uma vitória ou sofrer com uma derrota. Muitos dos nossos jogadores estão agora a fazer essa aprendizagem. 
— Pouco depois de chegar, dizia que os jogadores tinham de adquirir uma mentalidade ganhadora. Continua a pensar da mesma forma? 
— Claro. E repare que tínhamos jogadores com grande futuro, como o Tiago ou o Ricardo Rocha, que chegavam de equipas onde ganhar todos os jogos não era uma obrigação. E dá-me satisfação verificar que hoje em dia, se estamos numa série de seis ou sete vitórias e depois perdemos uma partida, os jogadores sofrem e reagem mal, o que é um sintoma positivo. 
— Isso é uma novidade, atendendo ao que era comum, no Benfica, nos últimos anos.  
— Mas é o que está a acontecer. Por exemplo, os jogadores estavam muito tristes após o jogo com o Marítimo, no qual, apesar do empate, jogámos mal. 
— E o Camacho, como se sentia depois dessa partida? 
— Obviamente mal. Mas, pelo menos, tivemos um pouco de sorte. Bom, o Marítimo também foi feliz no golo. Aquele era um jogo de empate, mas a zero e não a um. 
— O treinador, à imagem dos jogadores, também deve permanecer muitos anos no mesmo clube? 
— Não. Para um treinador é mais difícil. A obrigação do treinador é plantar a flor. E quem vier a seguir deve escolher o momento certo para colhê-la. 
— O que falta a este Benfica para se aproximar do FC Porto? 
— Em primeiro lugar, é preciso manter este rumo. E a seguir ir melhorando a equipa, sabendo reforçá-la. Segundo uma filosofia que diz que quem vem tem de fazer a diferença, tem de ser um jogador de referência e mais vale só fazer uma boa contratação do que seis ou sete que não levam a nada.

Rui Costa e Ronaldinho 
Não foi possível...

— Metade do plantel do Benfica é de qualidade superior e a outra metade é assim-assim, o que provoca desequilíbrios na equipa. Como é fazer esta gestão? 
— Em primeiro lugar não se pode mudar todos os jogadores. Desde o início disse à Direcção que queria Rui Costa ou Ronaldinho, por exemplo. Não foi possível, apesar de serem jogadores que se pagam por si próprios. No caso do Rui Costa, trocar o Milan pelo Benfica era mais complicado mas, eventualmente, trazer o Ronaldinho do PSG para Lisboa não seria impossível. 
— A Direcção tentou essas contratações? 
— Sim, mas não foi possível. 
— Isso contrariou-o? 
— Não porque sei que a Direcção tentou tudo. 
— A política de Florentino Pérez, de apostar em jogadores mediáticos que se paguem ao longo da época, é a melhor? 
— Cada um faz o que entende melhor. Florentino Pérez tem meios que nós não possuímos... mas tenho a certeza de que se a afición do Benfica tivesse na sua equipa duas estrelas como as que o Real Madrid contratou, encheria o estádio todas as semanas. 
— O Benfica não é, então, um caso perdido? 
— O potencial do Benfica é descomunal. 
— Isso surpreendeu-o? 
— Não esperava que tivesse tanto potencial. 
— Pouco aproveitado, contudo... 
—Creio que o presidente, passo a passo, vai seguir o caminho certo para o aproveitar devidamente. E todos conhecemos as dificuldades do anterior presidente para construir o estádio, encontrar campos de treino, pagar salários... E nesse caso, não tenho dúvidas: prefiro que se pague a quem cá está do que virem duas estrelas e ninguém receber. De qualquer forma, julgo que um craque de dimensão mundial acaba por pagar-se.

Reforços e capitão
Uma coisa são os desejos e outra as possibilidades

— Para já, a partir de Janeiro, vai contar com Fyssas... 
— Logo veremos... tem a certeza? 
— É o que parece... porquê, o Camacho não tem a certeza de que ele vem? 
— Não. 
— A nova Direcção, na tomada de posse, anunciou reforços para Janeiro próximo... 
— Certo. Mas uma coisa são os desejos e outra as possibilidades. 
— Teme a repetição dos folhetins do Verão passado? 
— Conhecemos a história e essa foi a de que não houve meios para fazer contratações. O clube está a fazer investimentos em outras áreas que o limitam bastante. Por isso, se for possível assinar com um jogador interessante que termine contrato, muito bem; se for só assinar por assinar, não devemos fazê-lo. 
— Depois de alguns problemas, sobretudo com a questão do capitão, em Jerez de la Frontera, passa para o exterior uma imagem de união entre a equipa técnica e os jogadores. É assim? 
— Há dificuldades que depois de ultrapassadas acabam por ser benéficas para a coesão do grupo. Por outro lado, tudo o que acontece no Benfica ganha uma proporção desmedida. No caso do capitão, é normal que vários jogadores gostassem de sê-lo. E o treinador, a meu ver, devia resolver a questão sem imposições, responsabilizando o grupo. O plantel tem de ter personalidade, porque, em limite, são os jogadores que, dentro do campo, resolvem os problemas. Também não fazia sentido obrigar um jogador, num determinado momento, a algo que o contrariava. Mas, passadas algumas semanas, tudo entrou na normalidade. É preciso saber dar tempo ao tempo.

Revelações de um falso duro 
Deve treinar-se como se joga


— Pensa muito em tácticas, durante a semana? 
— Não. O nosso modelo táctico está definido e o que se faz, semana a semana, é proceder a acertos, consoante as nossas disponibilidades e as características do adversário. É mais saber se fechamos ou abrimos mais num dos lados, se usamos três jogadores no meio campo ou optamos por dois avançados e nesse caso um deles tem de baixar, para evitar que fiquem os dois a marcar-se um ao outro. 
— Fala muito com os jogadores? 
— Sempre que entendo conveniente. Se um treinador fala de mais com os jogadores, pouco tempo depois estes não ligam nada ao que ele diz. Mas falar com todos resulta de uma filosofia de trabalho que assenta em tratar todos de forma igual. 
— E fala normalmente em grupo ou um a um? 
— Normalmente em grupo. Individualmente apenas quando o caso é pessoal. 
— O José António Camacho é aquilo a que pode chamar-se um falso duro, alguém que passa uma imagem de cara de poucos amigos para o exterior mas depois é capaz de manter uma relação afectuosa com os jogadores? 
— Mas eu não sou assim. O que acontece é que se estou a trabalhar não admito menos empenho e não brinco. Deve treinar-se como se joga. Não faz sentido um futebolista estar hora e meia no treino e não aproveitar nada. 
— Mas a ideia de dureza não é bem assim? 
— Os jogadores sabem qual é a minha missão. Mas porque não podemos ir comer juntos, ou conversar? O fundamental é perceber os futebolistas, entender a sua juventude e essa é a tarefa que me cabe. Sabe, vou revelar uma teoria que normalmente aplico: é quando se perde que os jogadores mais precisam de uma palavra amiga do treinador e é nessas alturas que eu estou mais próximo; quando ganhamos sou muito mais duro e só quero voltar a ganhar o jogo seguinte. 
— Concorda que os ataques ganham os jogos e as defesas ganham os Campeonatos? 
— Totalmente. 
— Mas o Benfica, neste momento, ataca melhor do que defende... 
— O que se passa é que nós atacamos muito e quando isso acontece a defesa normalmente descontrai-se. A quantidade de golos que sofremos de cantos ou livres só se explica por falta de concentração defensiva, devido à constante preocupação atacante. E isso, até agora, custou-nos muito caro. Repare que, de bola corrida, só sofremos três ou quatro golos. 
— Faz falta um jogador com a envergadura do Luisão? 
— Não creio que seja esse o problema. Defendemos normalmente com seis jogadores de estatura elevada: Hélder, Ricardo Rocha, Cristiano, Fernando Aguiar, Tiago e Sokota, todos com mais de 1,85, uma das médias mais altas do Campeonato.

Alguns casos do plantel 
Ricardo Rocha rende mais no centro de defesa


— O que se passa com Luisão? 
— Chegou, integrou-se na equipa, mas um problema que já trazia, uma infecção na boca, acabou por estar na base de uma rotura muscular. Agora que está quase bom vai partir para jogar na selecção brasileira. 
— Sente que cada vez que coloca o Ricardo Rocha a jogar na esquerda está a perder um bom defesa-central? 
— Essa opção depende de questões tácticas, ou de quem esteja disponível, ou do adversário que vai defrontar. É evidente que sei que o rendimento do Ricardo Rocha no centro da defesa é superior, mas recordo que, quando cheguei, já o tinham adaptado à esquerda. 
— Ainda não encontrou a dupla de centrais perfeita... 
— É verdade. Ricardo Rocha tem andado pela esquerda, Luisão jogou poucos jogos e lesionou-se. Tem sido uma dificuldade, mas isso faz parte da vida de todas as equipas. 
— Para encarar 2004 com optimismo o Benfica precisa de recuperar os lesionados (Luisão, Petit, Nuno Gomes, Geovanni...) e contratar um ou dois jogadores... 
— Contratar é mais difícil. Já me conformo se recuperar os lesionados. 
— Petit faz muita falta ao Benfica? 
— Estava a atravessar um grande momento de forma quando se lesionou. Mas o Aguiar entrou na equipa e tem feito um bom trabalho, especialmente no aspecto físico. 
— Mas para se integrar na circulação de bola já apresenta mais dificuldades... 
— Sim, mas permite, por exemplo, que o Tiago se aproxime mais da baliza contrária 
— Finalmente o Tiago voltou ao que era... 
— Teve um início de época complicado mas já está a parecer mais perto da baliza e a definir melhor. É um polivalente, capaz de jogar mais atrás ou perto do golo. 
— João Pereira foi uma boa surpresa? 
— Já estava referenciado, assim como outros jovens do clube. É fundamental que os jogadores dos escalões inferiores saibam que estamos atentos e preparados para dar-lhes uma oportunidade. 
— Mas João Pereira ainda não renovou com o Benfica... 
— Isso não é problema meu. O que me importa é saber que jogadores tenho disponíveis para fazer a equipa. Nada mais. De qualquer forma, parece-me um jovem interessante para ficar no clube. 
— Há cuidados a ter com os jovens? 
— Muitos. Não podem pensar que por fazerem um jogo bom já são os maiores e não devem vir para público dizer que já são os melhores. Há cuidados que devemos ter para os ajudar a progredir. Noutro âmbito, o João Pereira jogou o Europeu, não teve férias e a páginas tantas atravessou uma crise de ordem física à   qual estivemos particularmente atentos. 
— João Pereira é comparável a Pedro Munitis? 
— Não me parece... 
— Mas, tal como Munitis, é rápido, tem um centro de gravidade baixo, é bom no um-contra-um... 
— Isso é tudo verdade, mas mesmo assim são diferentes. O Pedro Munitis joga muito pelo meio e é um avançado mais directo. 
— Quis trazer o Munitis para o Benfica. 
— Impossível. Conheço o contrato que tinha com o Real Madrid. 
— Roger continua com um papel indefinido no Benfica... 
— A afición aprecia-o muito, mas os jogadores importantes também o devem ser dentro do campo. Está a treinar-se melhor, fui o treinador que lhe deu mais oportunidades, mas ainda lhe custa assumir responsabilidades dentro do nosso modelo de jogo. Tem características individualistas, embora se perceba um esforço de integração na equipa. 
— Os grandes golos que já fez não chegam para ser titular? — Gosto mais de grandes golos quando representam uma vitória por 1-0 ou 2-1; outra coisa é quando se ganha por cinco. 
— Quando o Zahovic veio de Valência com um contrato de quatro anos, especulou-se com uma reforma antecipada. Está satisfeito com ele? 
— O mais importante é a mente. Não é por ter doze anos de desgaste que um jogador está fisicamente acabado. Mas às vezes torna-se mais difícil correr atrás de um jogador do Rio Ave do que de um do Barcelona... Não se pode esperar o mesmo do Zahovic ou do João Pereira. Mas o Zahovic treina-se e joga como um verdadeiro profissional. 
— Simão está em excelente forma... 
— E a trabalhar muito bem, dentro dos padrões aconselháveis para quem está a competir duas vezes por semana. Mesmo com vários golpes nunca vira a cara e mostra total disponibilidade.

A onda de lesões 
Os problemas de natureza muscular 
não têm sido muitos


— A onda de lesões que tem assolado o Benfica deve-se ao facto de a equipa ter estado a top para os jogos com a Lazio? 
— A maior parte das lesões são traumáticas. O Tiago, no joelho, o Petit, agora operado ao joelho, o Simão, na planta do pé, o Miguel, no pé, o Zahovic, que partiu um dedo, o Roger... 
— Então, nada tema ver com a preparação para os jogos com a Lazio? 
— Não, os problemas de natureza muscular não têm sido muitos. Mas em relação à eliminatória com a Lazio, se um clube quer estar na Europa deve dar o máximo. 
— Ficar fora da Liga dos Campeões foi uma grande desilusão? 
— Jogámos o suficiente para seguir em frente e acabou por ser o guarda-redes da Lazio a decidir a eliminatória. Em Roma, apesar dos erros, jogámos bem e teremos pecado por demasiada ansiedade na forma como, aos 2-1, procurámos o empate e acabámos por sofrer o 3-1; no Bessa tivemos a melhor percentagem entre bolas recuperadas e perdidas. 
— O Benfica, na época passada, circulava melhor a bola. Concorda? 
— O ano passado conseguimos manter a mesma estrutura durante muito tempo e isso reflecte-se na qualidade do futebol praticado. Esta época, em alguns jogos, praticámos bom futebol. Por exemplo no Porto, apesar da derrota, ou ainda mais recentemente em Molde. 
— Foi complicada a fase do Estádio Nacional, em que o Benfica realizou uma temporada a actuar em campo neutro? 
— Foi como jogar fora, e isso o Benfica, sempre apoiado pelos adeptos, sabe fazer. Agora, o que também foi complicado foi a adaptação ao nosso estádio, uma realidade absolutamente nova. 
— Este Benfica inibe-se perante estádios cheios? 
— A responsabilidade desses jogos é normalmente maior e deparamo-nos por vezes com 60 ou 70 mil pessoas que pensam que o Benfica tem obrigação de vencer com facilidade. E isso é algo que, no futebol, já não existe. O Benfica não conquista o Campeonato há 10 anos, o clube tem tido muitos problemas e isso não pode ser solucionado de um momento para o outro. 
— E os sócios percebem isso? 
— Há alguns adeptos, mais exigentes, que acham pouco o que fazemos e reagem como se o Benfica continuasse a ser dominador em Portugal. Mas essa posição, há vários anos, pertence a outras equipas. A única coisa que podemos fazer é trabalhar para lá chegar. 
— A estrutura profissional de apoio é fundamental? 
— É imprescindível, desde os rostos visíveis até ao último funcionário. Fazer uma equipa é como plantar uma flor. Que deve ser colhida no momento certo, não antes, nem depois. 
— O Centro de Estágio do Seixal vai demorar ainda algum tempo até ficar operacional e é inevitável que nos próximos meses, muitos meses, o Benfica continue a trabalhar de casa às costas... 
— Claro. Mas repare: quando nos queremos comparar aos demais, temos de ter as mesmas condições que eles; e não é isso que se verifica. Só somos iguais na aplicação, porque os chicos estão a trabalhar a 100por cento.

Os sócios e Luís Filipe Vieira 
Se eu fosse um treinador egoísta teria pedido oito jogadores...

— É muito exigente? 
— Como treinador, tenho de perceber como estou e com quem estou. Sei que sou exigente, a começar por mim, e a seguir com quem me rodeia. Por exemplo, neste momento estou muito satisfeito com a atitude dos jogadores, que dão tudo o que têm. 
— Os adeptos percebem isso? 
— Olhe, neste momento a equipa já começa a fazer uma melhor circulação de bola, algo que temos trabalhado porque entendo que é essa a melhor forma de impormos o nosso jogo. E há quem assobie por achar que estamos a perder tempo. Agora, se estamos a defrontar uma equipa que tem onze jogadores na área, devemos ser pacientes até encontrarmos um espaço por onde entrar... 
— As equipas pequenas, em Portugal, fecham-se muito. Em Espanha é igual? 
— Cada equipa tem de procurar o melhor possível. Em Espanha é um pouco diferente, mas normalmente quem joga contra o Real Madrid aposta na defesa. Há excepções e em Pamplona, o Real quase não saiu do seu meio campo e acabou por empatar o jogo. 
— O seu discurso é frontal e coloca a verdade acima de tudo. Acha que alguma vez lhe faltaram à verdade no Benfica? 
— Não. A única divergência tem surgido com os adeptos, que aspiram a algo que ainda não é possível fazer.
— A sua relação com Luís Filipe Vieira é boa? 
— Sim, muito boa. Mas é como tudo, se eu fosse um treinador egoísta, em vez de pedir dois jogadores pediria oito. E não o faço porque sei que é impossível. 
— O Benfica tem de melhorar as estruturas de apoio ao futebol? 
— Em muitos aspectos, sim. O presidente do clube não pode fazer tudo. Não pode ir para o banco, contratar juvenis e comprar vitaminas. A sua tarefa fundamental é a de encontrar soluções económicas e procurar soluções desportivas de acordo com os meios de que dispõe. 
— A organização do Benfica é hoje melhor do que era há um ano? 
— O presidente acaba de ser eleito e está a trabalhar para isso. As suas funções são mais alargadas e está a preparar uma reestruturação. 
— O Benfica precisa de um director desportivo, à imagem de Valdano? 
— No Real Madrid a missão do presidente é diferente e no que respeita ao futebol o director desportivo é mais como se fosse um... presidente. 
— Há vários jogadores em final de contrato. O Camacho terá alguma palavra a dizer sobre a sua continuidade. 
— Sim e não. Vai depender. Mas isso pertence, sobretudo, ao clube. 
— E o Camacho, já pensou na próxima época? 
— Não, os meus planos passam por ganhar no domingo ao Paços de Ferreira. 
Se tivesse de eleger os pontos altos e baixos da sua carreira no Benfica, quais escolheria? 
— A maioria das pessoas relaciona esses pontos com as vitórias e as derrotas. Eu não penso assim. Desde que cheguei trabalhei sempre muito, com profissionalismo e sempre exigi muito pouco. Por isso, não procuro pontos altos ou baixos, apenas trabalho.  

 


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