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26 de Dezembro 2003:  Entrevista com Moreira

  
Primeira grande entrevista da época ao N.º 1 da Luz
Quero ser dos melhores do mundo

CONQUISTOU a titularidade da baliza encarnada com apenas 19 anos. Assumiu a responsabilidade e não mais parou de crescer, mesmo forçado a lidar com olhares de desconfiança. Aos 21 anos é pedra fundamental na equipa de Camacho. Trabalho, humildade e ambição são os segredos do sucesso. A possível contratação de Ricardo, no início da época, levou-o a remeter-se ao silêncio, quebrado agora em grande entrevista ao nosso jornal. Olha para trás sem mágoas e garante que o processo lhe deu «ainda mais força». A resposta, essa, tem sido dada «dentro do campo».

Esta é a sua primeira grande entrevista da temporada a um jornal desportivo, depois de vários meses de silêncio quase total. Por que razão decidiu resguardar-se dessa forma?
— Desde a pré-época que se falou em muita coisa, nomeadamente na possibilidade de o Benfica contratar este ou aquele guarda-redes. Eu entendo que devo apenas fazer o meu trabalho e a melhor maneira de falar e responder é dentro do campo, nos treinos e nos jogos.
Sentiu-se injustiçado com a possibilidade da contratação de Ricardo?
— É claro que não fiquei indiferente, pois além de ser jogador profissional também sou ser humano. Não se pode falar de injustiça, tenho contrato com o clube e a minha missão é trabalhar para jogar. A partir do dia 6 de Julho, independentemente da concorrência, só tinha de mostrar o meu valor e dar o máximo para ser titular, confiando sempre nas minhas capacidades.
Não entendeu tratar-se de um acto de desconfiança em relação às suas capacidades?
— Respeito as opiniões de cada um, embora tenha a minha. O Benfica é uma equipa de nível mundial e os seus responsáveis fazem todo o esforço por construir o melhor plantel possível. Se entendiam que era necessário contratar um guarda-redes, era uma decisão que tinha de respeitar. Só tenho de mostrar cada vez mais que posso evoluir e ser eu o melhor para o Benfica. Nunca encarei toda essa situação como uma falta de confiança, até me deu mais forças para mostrar dentro de campo o que quero e valho. Risco de intervalo no processo evolutivo
Quando se começou a falar de Ricardo não se sentiu um pouco colocado à margem?
— Colocado à margem não. Senti-me um pouco triste, é normal. Assumi a defesa da baliza do Benfica aos 19 anos, o que não foi uma tarefa fácil. Felizmente as coisas começaram a correr-me bem e senti que estava no caminho certo. A contratação de outro guarda-redes poderia ser uma pedra no sapato, poderia interromper durante algum tempo a minha evolução, e é óbvio que não fiquei indiferente a isso. Seja como for, o meu propósito seria o mesmo: continuar a lutar para seguir o caminho que tracei. Trabalho hoje da mesma forma que o fazia há cinco anos, quando cheguei ao Benfica, e quero continuar o meu período de evolução para um dia chegar ao topo e poder dizer que sou um dos melhores. Agradecido à família e aos companheiros
Onde arranjou forças para superar esses momentos?
— Quando se começou a falar da contratação de outro guarda-redes estava de férias em Cuba. Foram quinze dias para me abstrair de tudo e descomprimir. No meu íntimo, contudo, já sabia que isso iria acontecer, pois na pré-época anterior tinha sido a mesma coisa com o Ricardo, o Quim e o Yannick. Quando cheguei a Portugal é que tomei conhecimento todas as notícias. Procurei distanciar-me, embora não tenha conseguido ficar indiferente. A minha família deu-me muito apoio, nomeadamente a minha mãe, o meu pai, o meu irmão e a minha namorada. Fizeram-me acreditar ainda mais que posso vir a ser um dos melhores do mundo. É esse o meu objectivo. Sei que é muito difícil lá chegar, não sei o dia de amanhã, mas a minha vontade é ser um dos melhores do mundo.
Sentiu igualmente o apoio dos seus companheiros?
— Sim, todos me deram o máximo apoio e não posso deixar de agradecer publicamente a atitude do Simão, embora já o tenha feito pessoalmente, pela forma como se referiu a mim na pré-época, em conferência de Imprensa.
Camacho falou consigo nessa altura?
— Sim, mas isso é assunto para ficar entre treinador e jogador. Continuar a melhorar
Sentiu-se aliviado quando percebeu que Ricardo não seria reforço?
— Aliviado não é uma palavra adequada, pois nunca duvidei das minhas capacidades e continuaria a lutar da mesma forma pela titularidade. O alívio que senti foi por ver terminada a novela, com notícias constantes nos jornais, rádios e televisões. Durante muito tempo quase não se falou no Moreira e naturalmente que isso me deixou um pouco triste, mas o futebol é assim. Serviu-me para aprender, amadurecer e, como já disse anteriormente, ganhar mais força.
Magoado com alguém?
— Não, de forma alguma. Não sinto mágoa em relação a ninguém, a não ser que me façam muito mal.
O Benfica acabou por não contratar outro guarda-redes e você está de pedra e cal no onze...
— É para isso que tenho trabalhado. No futebol, como na vida, há sempre pequenos percalços, coisas que correm menos bem, mas felizmente que até agora só posso dar graças a Deus pelo caminho que tenho percorrido. Quero dar continuidade a esse trabalho e melhorar muito mais.  

O sonho de marcar presença no Euro-2004
Selecção Nacional é objectivo 
mas não estou obcecado

Sente que já merecia uma oportunidade na Selecção Nacional AA, por aquilo que tem feito? 
—Não quero pensar dessa maneira. Neste momento tenho estado ao serviço dos sub-21, com muito orgulho. É evidente que, como qualquer jogador português, ambiciono chegar à Selecção Nacional, é um objectivo, mas tenho os pés bem assentes na terra. Quando o mister Scolari decidir convocar-me tudo farei para corresponder. Prefiro encarar as coisas com calma. Vou trabalhar para que esse dia chegue, mas não sei quando será nem estou obcecado. Até essa oportunidade chegar, procuro dar sempre o meu melhor no Benfica e nos sub-21. 
Sente que é um dos guarda-redes portugueses em melhor forma? 
— Não me compete a mim dizer isso. Só penso em trabalhar e ser cada vez melhor.
Estar presente no Euro-2004 é um objectivo ou um sonho? 
— É um sonho, prefiro ver as coisas assim. Depende do meu trabalho, mas não só. Quando os responsáveis da Selecção entenderem que chegou o momento certo para eu ajudar Portugal a conseguir êxitos, lá estarei com muita honra. Até lá, vou trabalhar e aguardar com muita calma. 
O facto de ainda não ter sido chamado pode estar relacionado com a sua idade? 
— Penso que não. É uma questão de momentos. A Selecção tem os seus guarda-redes e eu trabalho com os sub-21. O meu momento na equipa principal há-de chegar e será o realizar de um sonho. Vou aguardar com tranquilidade pela minha oportunidade e quando ela surgir vou tentar agarrá-la.
Favoritos a vencer o Europeu?
— Hoje em dia não há favoritos, mas sim equipas com mais títulos e que por isso são sempre apontadas como potenciais vencedoras. Há várias selecções com hipóteses e Portugal é uma delas. Oxalá possamos vencer. Penso que podemos fazer uma carreira muito bonita. Para já... os sub-21
Os sub-21 conseguiram o apuramento para o Europeu. Quais são agora os objectivos?
— Fomos muito criticados sempre que deslizámos, durante o apuramento, e até em França foi dado maior destaque a uma situação secundária, não tanto à vitória. Em Portugal parece que o mais importante foi o episódio do balneário, que está resolvido. Temos muito para dar no Europeu e o objectivo já definido é conseguirmos a qualificação para os Jogos Olímpicos. Sermos campeões da Europa é um sonho, mas vamos com calma.  

Ainda não se sente realizado mas o tempo tem-lhe dado maior experiência e maturidade,  Já não olham para mim como o miúdo de 19 anos...

APESAR do bom momento que atravessa, Moreira não se deslumbra. Sabe que uma grande carreira não se constrói em dois anos, mas sim com regularidade demonstrada ao longo do tempo, e também com títulos conquistados. «Tenho de continuar a superar os meus limites para, um dia, poder olhar para trás e dizer que fui o melhor ou um dos melhores», diz. Para já, entende que já fez uma importante conquista: as pessoas olham mais para o seu desempenho do que para a sua idade. O miúdo que se estreou como titular aos 19 anos cresceu muito. 

— Sente-se realizado? 
— Não. Se me sentisse ficaria acomodado e isso é algo que rejeito totalmente. Até morrer temos muito para aprender e quero evoluir muito mais, ganhar títulos, fazer uma grande carreira e ter um excelente currículo. 
— Na última entrevista ao nosso jornal, em Março, afirmou trabalhar para ser o melhor. E hoje? 
— Continuo a trabalhar para ser o melhor. Se já estou ou não entre eles, não me compete a mim dizer. Só tenho de continuar a aprender, evoluir e superar os meus limites para que quando acabar a carreira possa olhar para trás, não me arrepender de nada e dizer que fui o melhor ou um dos melhores, que trabalhei, lutei e alcancei. Para isso ainda tenho um longo caminho a percorrer. 
— Entende que esta é a sua época de afirmação definitiva? 
— Penso que a afirmação definitiva não se consegue nesta ou naquela época, mas sim em todas as temporadas. O que sinto é que estou cada vez mais maduro e a evoluir. Um dos melhores momentos 
— Mas vive o seu melhor momento desde que assumiu a titularidade no Benfica? 
— Sim, poderá ser um dos meus melhores momentos, mas não quero viver apenas de melhores momentos, o meu objectivo é que ele dure para sempre e que o amanhã possa ser sempre melhor. 
— As pessoas começam a olhar para si de outra forma, não tanto como uma jovem promessa mas sim como um valor seguro? 
— Sim, acho que as pessoas quando olham para mim já não vêem tanto aquele miúdo de 19 anos que se estreou como titular frente ao Gil Vicente. Penso que já me encaram como um guarda-redes mais maduro, o que é natural porque evolui muito nestes dois anos. Quero crescer ainda mais para que todos me olhem como um guarda-redes digno de envergar a camisola do Benfica e defender a baliza do clube, onde excelentes guarda-redes brilharam antes de mim. Quero ser titular do Benfica por muitos e bons anos.
— Sente que a sua idade já não conta tanto...
— Sim. Quando comecei tinha 19 anos e não era normal ver-se um guarda-redes titular tão jovem no Benfica. Isso gera sempre algum receio, fruto da juventude e da falta de experiência. A verdade é que essa experiência consegue-se com os jogos e até com os golos que se sofrem, não com as defesas que se fazem. Se hoje sofrer um golo em que tive culpas, sei que amanhã não o posso voltar a sofrer da mesma maneira. O meu objectivo é errar o menos possível. É bom que as pessoas vão olhando para mim de outra forma, não tanto pela idade, mas sim pelo que faço dentro do campo.
— Era apenas de tempo que precisava para evoluir?
— Isso é o fundamental para qualquer jogador. O melhor treino é o jogo. Podia treinar-me bem, mas se não jogasse não evoluiria tanto. Estou agradecido a todas as pessoas que apostaram em mim, assim como àquelas que me apoiaram, em casa ou na rua. Da minha parte, sempre lutei e lutarei para corresponder e crescer. Sem medo de concorrência
— Daqui para a frente, teme a chegada de concorrência?
— O futebol é feito de contratações, de jogadores que entram e saem. Tanto se fala de guarda-redes como de jogadores para outras posições. Temer não temo, respeito todas as decisões e se um dia vier mais um guarda-redes vou ajudá-lo a adaptar-se pois acima de mim está a instituição Benfica. Eu sou um para ajudar entre muitos e todos os reforços são para o bem do clube, para que volte ao lugar que merece: campeão em Portugal e um dos melhores no estrangeiro. Com ou sem a chegada de concorrência, o meu desejo de ser titular é o mesmo e é para isso que trabalho. Dou sempre o máximo e é isso que pretendo continua a fazer.  

Grupo unido e na luta pelo título, sem complexos
Estamos a praticar o melhor futebol


O guardião do templo da Luz aponta a estabilidade e consequente união como vectores fundamentais para o bom momento que a equipa atravessa. Desde os jogadores à equipa técnica, sem esquecer os dirigentes e todos aqueles que têm a seu cargo o trabalho invisível, Moreira sente que o clube está cada vez mais coeso, o que se reflecte dentro do campo. A distância para o FC Porto é recuperável, mas para isso a equipa terá de continuar a vencer. «Não adianta estarmos a dizer que vamos fazer isto ou aquilo, temos é de continuar a ganhar cada jogo e no final se verá», sublinha, considerando que de forma alguma o Benfica é inferior ao FC Porto.


— A que deve o bom momento que a equipa atravessa, com sete vitórias consecutivas e ainda na luta pelas três competições em que está envolvida?
— Penso que tem sobretudo a ver com a união e coesão de todo o grupo, de todas as pessoas que trabalham para que o Benfica seja cada vez maior. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o plantel do Benfica é unido, é como uma família. Todos os jogadores se dão bem e temos uma excelente relação com a equipa técnica. Todas as pessoas do clube estão a contribuir para que o clube melhore de dia para dia e penso que isso se está a reflectir dentro do campo. Estamos cada vez mais entrosados e unidos, conscientes de que chegar ao primeiro lugar depende de nós. É essa a nossa força, é como o lema do Benfica: um por todos e todos por um. O mérito não é só dos jogadores e da equipa técnica, é também de todos aqueles que fazem o trabalho invisível, sem esquecer também os dirigentes, que são fundamentais. Neste momento todos pensamos no êxito colectivo, pois esse será também o de cada um de nós.
— A estabilidade ao nível do grupo de trabalho, da equipa técnica e da própria Direcção é fundamental...
— Sim, é precisamente essa estabilidade que contribui para a união. Em tudo na vida, quanto mais convivemos com uma pessoa, quanto mais tempo passamos com ela, maiores são os laços de amizade. No futebol também é assim. Este grupo já se conhece bem, sabemos as virtudes e defeitos de cada um. Mesmo na relação com o treinador já percebemos muito bem as suas mensagens, o que pretende transmitir-nos. Não quer dizer que não se goste mais deste ou daquele ou que não existam pequenas discussões, como nas famílias, em que o pai discute com o filho ou um irmão com o outro. O importante é que tudo é passageiro porque o objectivo é comum: engrandecer o Benfica.

Sem obsessão

— A seis pontos do FC Porto, acredita que o Benfica pode chegar ao título, em ano de centenário?
— Acredito, sem dúvida. Não estou, contudo, obcecado com isso. O melhor é pensarmos jogo a jogo, procurando sempre vencer e somar pontos. Não adianta estar a dizer que vamos fazer isto ou aquilo. É como diz o mister, o objectivo é vencer o próximo jogo, que será frente ao Sporting. Só pensando assim poderemos ser campeões. Temos de falar menos e provar dentro do campo. No fim fazem-se então as contas.
— O FC Porto é o principal favorito a vencer a SuperLiga?
— Se calhar neste momento é porque está seis pontos à nossa frente e é líder, mas ainda faltam muitos jogos e vamos lutar por somar as vitórias e os pontos necessários para sermos campeões.

Nem que seja por meio a zero...

— O Benfica está à altura do FC Porto?
— Para mim, neste momento, o Benfica é a equipa portuguesa que melhor futebol está a praticar. Tivemos um ou outro deslize que não nos permite estar na frente ou colados ao FC Porto, mas se continuarmos nesta senda de vitórias temos muitas hipóteses de sermos campeões. Vamos com calma para podermos sorrir no final. Uma coisa é certa, não sinto que o Benfica seja inferior ao FC Porto.
— O que falta ao Benfica para atacar definitivamente o título ainda esta temporada?
— Continuar a ganhar, nem que seja por meio a zero. O importante é somar os três pontos a cada jogo que passa.  

 


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